O que você faria se fosse um carro queimando no acostamento de uma avenida movimentada? Pergunto para além do de sempre, porque arder, soltar gases tóxicos e ser espetacular não me satisfariam como resposta. Estou curioso sobre aqueles últimos momentos, aquele estado misterioso entre o ser carro e ser combustível, uma forma de recursão que só se experimenta uma vez.
Os ônibus lotados passam, os passageiros têm apenas momentos para fechar as janelas antes de mergulhar na nuvem escura que esconde o resto do trajeto. Tomados de inquisitividade, todos olham e encaram. As perguntas se acumulam, verbais ou corporais. "Quando aconteceu?", "Cadê as autoridades?", "Alguém morreu?", etc. Mas algo morreu. Morreu e ninguém se pergunta o que foi.
Quando, em meio à confusão, a rotina segue com a força de um touro desesperado, é que a pilha de sucata em chamas reconhece que ela nunca viveu. Nunca esteve ali de verdade. Era só parte, era só. Outras coisas aparecem, ocupam o lugar, vão ocupar; mas naquele auge da história terminou o papel do que quer que aquela coluna de chamas e fumaça costumava ser.
Longe dali ninguém suspeita que morreu uma parte da realidade bem pertinho.
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Mist or beast