O que o Homem de Hamjadahl faria?

quinta-feira, agosto 14, 2025

Foi logo em uma quinta-feira

O que você faria se fosse um carro queimando no acostamento de uma avenida movimentada? Pergunto para além do de sempre, porque arder, soltar gases tóxicos e ser espetacular não me satisfariam como resposta. Estou curioso sobre aqueles últimos momentos, aquele estado misterioso entre o ser carro e ser combustível, uma forma de recursão que só se experimenta uma vez.

    Os ônibus lotados passam, os passageiros têm apenas momentos para fechar as janelas antes de mergulhar na nuvem escura que esconde o resto do trajeto. Tomados de inquisitividade, todos olham e encaram. As perguntas se acumulam, verbais ou corporais. "Quando aconteceu?", "Cadê as autoridades?", "Alguém morreu?", etc. Mas algo morreu. Morreu e ninguém se pergunta o que foi.

    Quando, em meio à confusão, a rotina segue com a força de um touro desesperado, é que a pilha de sucata em chamas reconhece que ela nunca viveu. Nunca esteve ali de verdade. Era só parte, era só. Outras coisas aparecem, ocupam o lugar, vão ocupar; mas naquele auge da história terminou o papel do que quer que aquela coluna de chamas e fumaça costumava ser.

    Longe dali ninguém suspeita que morreu uma parte da realidade bem pertinho.

quarta-feira, agosto 13, 2025

Sou crítico de cinema agora

Vi Adventureland, aquele filme do ator que faz Mark Zuckerberg em The Social Network e que tem o mesmo diretor de Superbad. Não sei se é exatamente um besteirol no sentido convencional da palavra, mas tem romance jovem e álcool, deve ter alguma interseção. O filme é curto, fala desse cara que queria viajar para a Europa depois da colação de grau, mas precisa trabalhar durante o verão para completar o orçamento.

    Não esperava gostar tanto dos personagens, principalmente aquele coadjuvante. Quando o protagonista começa a trabalhar no parque de diversões ele tem um mentor veterano que tem essa atitude laissez-faire na vida, humor sarcástico e um cabelo de dar inveja. Eventualmente ele se torna o bastião de moral usual desses filmes de romance, mas isso não tira da tranquilidade de ter ele em cena.

    O elenco é um tanto quanto insano, e não digo isso no sentido de prestígio, mas de improbabilidade. Temos Jesse Eisenberg, o Michael Cera original; Kristen Stewart, com os mesmo maneirismos de Crepúsculo; Ryan Reinolds, já consagrado galã-galinha ao melhor estilo Lisbela e o Prisioneiro; e Bill Hader, que reconheci de Barry, mas enquanto via o filme não fazia ideia de onde. Foi um pouco cansativo aceitar que todos eles estavam na mesma produção, mas quando caiu a ficha foi ótimo.

    A história acontece devagar, mas sem se arrastar. É somente uma arte pouco vista hoje em dia: o filme de comédia romântica que dá tempo para refletir, que não compete pela maior metragem de piadas por minuto. Dito isso, adorei Frigo, o amigo de infância do protagonista, não gostava dele no início, mas no final eu odiava ele de um jeito carinhoso. Só lembro do nome porque era o que o protagonista gritava sempre que levava um soco no saco.

    Bom filme, veria de novo e recomendaria caso estivesse numa festa e perguntassem "Alguém conhece um filme bom para a gente ver?". Basicamente, é divertido e divertido é bom o bastante.

  https://static01.nyt.com/images/2009/03/22/arts/22roht1a_600.jpg?quality=75&auto=webp

quarta-feira, julho 09, 2025

Foram embora, mas a pé

Leitores assíduos devem ter notado o desaparecimento de uma, duas ou quatrocentas postagens do blog de uns tempos para cá. Antes que me acusem fã desesperado do filme de Suzumiya Haruhi, declaro: não sei o que aconteceu. Talvez tenham se escondido, talvez tenham casado e se mudado para o interior, talvez tenham fugido com medo de que a Inteligência Artificial™ os assimilasse em uma eternidade de reproduções fragmentadas e vazias de identidade. Tudo é possível, motivo pelo qual não me desesperei.

As postagens em si estão a salvo no arquivo do Blogger, mas não sei como restabelecê-las à glória passada. Igual a Amaranta, percebi-me culpado no domínio da consciência por ter desejado que algumas dessas postagens não tivessem visto a luz do dia; imaginei que meu desejo ardente de reformar a entropia tivesse posto em xeque nossa realidade como a conhecemos. De novo, Haruhi não é uma religião, não desde os anos 2000.

            Minha alma chora pelos alunos do ensino fundamental que perderam um dos links mais populares para pesquisa de imagens vagamente relacionadas ao Surrealismo plástico. Talvez meu grande e único legado para a educação nacional.

  https://a.storyblok.com/f/178900/640x360/169a08e6ea/1a17526ef452821c05fa1d112b44a12a1568823572_full.png/m/640x360 

quinta-feira, abril 03, 2025

Nesse anime de fantasia, pessoas casam e têm casa própria antes de terminar o Ensino Médio

    Class no Daikirai na Joshi to Kekkon suru Koto ni Natta foi uma surpresa.
   Resolvi passar parte da noite vendo alguns pilotos para entender o que se passar na vanguarda da animação japonesa. Primeiro, Sakamoto Days. O mangá é ótimo, tem um fluxo muito bom, apesar da história de homen-lendário-que-se-esconde-para-viver-em-paz,-mas-as-circunstâncias-querem-que-ele-volte-a-ser-menos-que-uma-lenda não me agrade bastante. O anime é definitivamente um anime, mas tudo acontece rápido demais e não consegui suspender meu ceticismo rápido o suficiente. Voltei ao catálogo da season para ver outro título.
    O outro título aquele do primeiro parágrafo. E me surpreendeu. E talvez eu veja mais, porque gostei dos personagens que me lembram demais o ridículo que eu adoro nessas comédias fantasiosas. Dois frenemies se casam; antes de terminar a escola, claro. Passam a morar numa casa própria e vivem altas situações inusitadas. Se você lê isso, pensa "que surreal" e está se referindo à parte em que eles se casam... sinto muito, mas a única coisa que me deixa pasmo é parar de pagar aluguel tão cedo na carreira (na inexistente carreira).
    E tem uma tsundere. Quem não gosta de uma tsundere?