O que o Homem de Hamjadahl faria?

sexta-feira, outubro 24, 2025

O Homem de Hamjadahl - Capítulo III

O Homem de Hamjadahl encontrou, certo dia, um cachorro em apuros. O animal havia subido em uma árvore atrás de um gato, porém acabou preso enquanto o felino escapou sem um pingo de dó para com o pastor-alemão, que se contorcia sem parar em meio aos galhos baixos da planta.
    A princípio o Homem de Hamjadahl viu a situação com desconfiança, pois lhe escapava como poderia uma criatura tão forte e ágil se encontrar em situação tão patética. Os latidos do cão enchiam aquela parte da floresta de desespero. Parecia que ele tentava, antes, afugentar qualquer curioso, tamanho era o exaspero propagado. Não obstante sua crescente incerteza, as sinapses de nosso protagonista vingaram em grande estilo e proporcionaram segurança sobre o que acontecera e o que deveria ser feito.
    — Segura as pontas, infeliz. — disse ao animal enquanto rodeava a árvore que identificou como um salgueiro desbotado pelo solo estéril da região.
    Em pouco tempo encontrou o que procurava: um ventilador graúdo se confundia com um planalto suspicaz e relativamente pequeno. Décadas de um vento constante emanado de pás enferrujadas desfiguraram a árvore logo em frente, criando o emaranhado sobrenatural e inclinado de madeira flexível que fazia as vezes de cadeia. O equipamento infernal estava desligado há pelo menos alguns meses: a relva crescia em tortuosos caminhos entre fios amarelos e vermelhos, e o rolamento interno da hélice nunca mais faria uma revolução completa.
    — A armadilha que te fizeram foi astuta, mas não contaram com o orgulho de minha vila, empatia e brio — anunciou o Homem de Hamjadahl logo antes de dar um pontapé estupendo na lateral do planalto, que se desintegrou instantaneamente em pedaços, arremessando porcas e besouros em iguais medidas para todos os lados.
    O cachorro esperneava ainda mais agora, o temor que sentira diante da liberdade restringida foi substituído por uma ansiedade infinita de morte. Não havia dúvidas em sua mente canina de que qualquer invólucro mortal sucumbiria imediatamente à energia irresistível daqueles quadríceps revolucionários. Com pouco tempo de vida na Terra, era-lhe difícil distinguir as intenções dos seres, eram muitos e com os objetivos mais variados; sempre piores eram as maquinações desses bípedes lentos.
    "Como chora, o miserável! Deve amar bastante a vida." — pensou o Homem de Hamjadahl ao ouvir a intensidade dos latidos subir conforme se aproximava, imponente, do salgueiro.
    O bicho foi vencido pelo cansaço e desmaiou logo antes de ser feito livre. O Homem de Hamjadahl resolveu levá-lo para casa, pois alguns membros de sua família peregrinavam até um sítio sagrado e isso o fazia sentir-se só nos momentos de ócio.
    — Vai se chamar Desgraçado — murmurou para si enquanto o jovem pastor-alemão oscilava gentilmente em seus braços.

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